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Covid-19

Neurocientista alerta sobre risco de transtornos mentais no cenário pós-pandemia

O neurocientista carioca Stevens Rehen comparou a gripe espanhola com a Covid-19: 'Os sobreviventes relataram distúrbios do sono, depressão, confusão mental'

Pâmela Lima

16/02/2021 09h45


Em 1918, o mundo passava por uma das crises mais graves da história da humanidade: a gripe espanhola. A doença matou pelo menos 50 milhões de pessoas, sendo 35 mil apenas no Brasil. Assim como hoje em dia, a população andava com máscaras e tinha de manter o isolamento social.

De acordo com estudos realizados no século XX, não é possível determinar o local de origem da gripe espanhola, mas os primeiros registros da doença apareceram em um forte militar nos Estados Unidos em 1918 durante a Primeira Guerra Mundial. Acredita-se que a guerra, inclusive, contribuiu para espalhar a doença pelo mundo devido aos deslocamentos militares.

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O curioso é que a doença surgiu nos Estados Unidos, ou na China, como acreditam alguns historiadores, mas recebeu o nome de espanhola. O motivo disso é que a Espanha foi o primeiro país a reportar casos da doença. Por causa da guerra, os países envolvidos no conflito preferiram não fazer alarde sobre a pandemia para não desestabilizar a população nem as Forças Armadas.

Segundo especialistas, a gripe surgiu a partir de uma mutação do vírus Influenza e teve três ondas: em março de 1918, em agosto de 1918 e em janeiro de 1919, sendo a segunda considerada a pior delas. O sistema de saúde entrou em colapso em vários países e leitos foram improvisados para tentar suprir a demanda, sem sucesso. Naquela época, ainda não existiam antibióticos e o tratamento consistia principalmente em aliviar o sofrimento do paciente.

No Brasil, a gripe espanhola chegou por meio de um navio proveniente da Inglaterra e que aportou em Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Pelo menos 20% da população de São Paulo foi infectada. Diferentemente da pandemia do novo coronavírus, a gripe espanhola durou entre setembro e novembro de 1918 no país. Após a superação da doença, o país realizou o chamado “Carnaval da Ressurreição”.

É natural esse anseio de alegria e de prazer que se nota entre o nosso povo: não tivesse ele a descontar tantos sustos, tantos aborrecimentos, tantas tristezas, que só o carnaval - especialmente para todos os males - poderá curar. (...) A alegria transbordou até altas horas, triunfalmente, como uma enorme vingança da vida imortal contra os horrores que a quiseram escurecer”, consta em reportagem do Estado de São Paulo de fevereiro de 1919.

A gripe espanhola inspirou até as marchinhas de Carnaval. “Não há tristeza que possa/ Suportar tanta alegria/ Quem não morreu da espanhola/ Quem dela pode escapar/ Não dá mais tratos à bola/ Toca a rir, Toca a brincar”, consta em outro trecho de reportagem de janeiro de 1919.

A pandemia de hoje

O neurocientista carioca Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto D'Or, publicou no último sábado (13), no Estadão, um artigo comparando a pandemia da gripe espanhola com a do novo coronavírus. Segundo ele, as semelhanças entre os dois eventos “vão além do agente de transmissão viral e sua rápida disseminação”. “Nesses dois momentos, governos e parte da sociedade desacreditaram a existência e o impacto das pandemias. Alguns países chegaram a omitir informações, censurando cientistas e imprensa. Também não faltaram teorias conspiratórias. Em 1918, dizia-se que a gripe tinha sido espalhada pelos alemães em garrafas jogadas ao mar. Em 2020, tem gente acreditando que o coronavírus foi criado pelos chineses”, afirmou o cientista.

Stevens alerta ainda sobre o impacto da pandemia após a superação da doença. “Na década de 1920, os pacientes com transtornos mentais aumentaram sete vezes. Os sobreviventes relataram distúrbios do sono, depressão, confusão mental, houve elevação nas taxas de suicídio. Não é impossível que um cenário semelhante ocorra nos próximos anos”.

Outro ponto de semelhança entre as duas pandemias destacado pelo neurocientista é o desfecho delas. “Há 100 anos debatia-se sobre qual seria o ‘germe causador’ da gripe espanhola. Em 2020, a ciência sequenciou o coronavírus dez dias após a comissão de saúde de Wuhan ter reportado os primeiros casos de pneumonia. Nos países que abraçaram as evidências, os impactos da Covid foram bem menores”, ressaltou Stevens.

 

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