Cultura

Livro de Marco Lucchesi ganha nova edição sobre Dante, autor de 'A Divina Comédia'

Nos 700 anos da morte de Dante, 'Nove cartas sobre A Divina Comédia' tenta demonstrar a contemporaneidade do escritor

Jucielle Leal

Há 6 dias


O escritor Marco Lucchesi, que também é presidente da Academia Brasileira de Letras (Foto: Reprodução/oficinaraquel)
O escritor Marco Lucchesi, que também é presidente da Academia Brasileira de Letras (Foto: Reprodução/oficinaraquel)

Literatura - O escritor Marco Lucchesi, atual presidente da Academia Brasileira de Letras, lançou uma nova edição do seu livro "Nove cartas sobre A Divina Comédia", que marca os 700 anos de morte de Dante, autor do seminal poema italiano "A Divina Comédia", que mergulha no Inferno, no Purgatório e no Paraíso. Nele, Lucchesi convida o leitor a desvendar os mistérios de "uma juventude de 700 anos". São nove missivas (como os nove círculos do Inferno), em que, em um gesto de fraternidade, o autor se dirige diretamente ao leitor e discute com ele a contemporaneidade de Dante.

A nova edição do livro, revista e atualizada pela Bazar do Tempo, conta com novos capítulos e imagens reunidas pelo designer Victor Burton.

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"Os trabalhos monumentais de eruditos em todas as partes do globo só fazem 'A Divina Comédia' crescer, mas essa percepção da contemporaneidade da obra se deu principalmente porque três grandes poetas do século passado, T.S. Eliot, (Ossip Emilievitch) Mandelstam e Jorge Luis Borges, revolucionaram a interpretação dantesca, encontrando a parte mais ligada à vanguarda de sua obra", explicou Lucchesi.

Antes desses três, acredita Lucchesi, apenas os cantos do Inferno provocavam maravilhamento na maioria dos estudiosos. Pensava-se que o Paraíso continha muita “doutrina” e era a série menos bem acabada de Dante.

"Borges, Eliot e Mandelstam mostraram o contrário: se fosse necessário escolher o endereço mais ousado da poesia de Dante, este seria o Paraíso. Dante indaga a própria linguagem, paralisa a própria poesia, compreendendo que ela será incapaz de levar a mais absoluta luz, a transcendência que está além de toda transcendência, que é o mistério divino. Ele faz desse grande Não um Sim indireto e belíssimo", disse o escritor.

Nas cartas de Lucchesi, Dante aparece como um “egípcio”, que “embalsama” diversas figuras históricas e literárias de seu tempo. O autor também mapeia a influência do italiano em poetas brasileiros como Jorge de Lima. Fato relativamente pouco conhecido, Machado de Assis chegou a traduzir parte da “Divina Comédia”.

"'A Divina Comédia' deixou de pertencer a si própria. Ela ultrapassou a qualidade intrínseca de uma obra e, como toda grande metáfora, pede para ser modificada, performada, sequestrada e amada. É essa grande viagem que ela continua fazendo", afirmou Lucchesi.

Se, na poesia, a vanguarda de “A Divina Comédia” está mais representada ao longo do Paraíso, no imaginário visual em torno da obra ocorre o contrário. O Inferno é sempre mais retratado, como demonstra a pesquisa iconográfica de Victor Burton feita para o livro. O designer gráfico, que já venceu sete prêmios Jabuti, faz uma seleção comentada que abrange seis séculos de representação pictórica do universo literário e filosófico de Dante.

A preferência dos ilustradores e artistas plásticos pelo Inferno tem uma explicação simples. Ao imaginá-lo, o poeta é muito descritivo, criando imagens sedutoras. “(...) sobretudo no Inferno, ele se vale de descrições ricas e imagéticas, numa linguagem em que as palavras remetem a realidades que ressoam na memória dos homens”, escreve Burton no livro.

O inferno é pop

Dante estava criando o seu Inferno no momento em que a cultura ocidental começava a representá-lo visualmente. Sua visão contribuiu decisivamente para moldar na nossa mente uma imagem das trevas que permanece no inconsciente coletivo até hoje. "O inferno estava sendo construído nessa época, nos afrescos no século XIII. Tinha que ter todo um aparato para criar medo nas pessoas. Tinha que ser assustador popularmente. Não à toa as imagens são muito ricas. O paraíso é muito difuso, muito chato. Todo mundo prefere o inferno", disse Burton.

A seleção de Burton vai desde um afresco representando Dante no século XIV até as gravuras feitas pelo artista plástico inglês Tom Phillips, que parecem mais uma HQ. Passam ainda por obras de Salvador Dalí, William Blake e Sandro Botticceli, entre outros. Os variados estilos através dos tempos — surrealismo, simbolismo, collage — mostram como a “Divina Comédia” se transformou na obra mais ilustrada de todos os tempos. Nenhum artista fez mais por sua popularidade, porém, do que o francês Gustave Doré, presente no livro com diversas imagens.

A edição de luxo de “A Divina Comédia’” ilustrada por Doré no século XIX fez tanto sucesso que ganhou vida própria.

"Até hoje pouca gente leu o original do Dante, mas muitos a conheceram através da edição de Doré, que até acho um pouco literal demais. Como quase todo mundo já conhece esses desenhos, procurei utilizá-la de forma diferente, com mais close up para dar uma maior visão da precisão das imagens", contou Burton.

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