Música

Enem: Questão com música do Zé Ramalho vira assunto nas redes sociais

'Admirável Gado Novo', lançada em 1979 pelo cantor, foi a canção citada em uma das provas deste domingo

Jucielle Leal

Há 66 dias


O cantor Zé Ramalho (Foto: Reprodução/JC)
O cantor Zé Ramalho (Foto: Reprodução/JC)

Música - O primeiro dia de Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) foi neste domingo (21) e uma das questões das provas deu o que falar nas redes sociais. É a que citou a música “Admirável Gado Novo”, composta pelo cantor Zé Ramalho. Na questão, foi perguntado qual comportamento coletivo é criticado na canção que foi lançada em 1979.

Depois da citação virar assunto na web, o cantor comentou a presença do trecho de sua música na prova. Zé Ramalho disse ter ficado surpreso e que a canção foi criada na época do regime militar.

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"Foi uma grata surpresa! A citação, no caso, acontece numa prova como a do Enem, tão polêmica e tão importante em todas as suas edições. Essa música já tem 43 anos, desde que foi feita, e foi feita ainda no regime militar. Fico orgulhoso, em ver que no meio de tantos artistas, também importantes, que fizeram músicas com temas políticos, foram superados pela minha criação poético-musical", afirmou o cantor.

Entendendo a canção

A música “Admirável Gado Novo” faz um trocadilho com o livro “Admirável Mundo Novo”, do autor Aldous Huxley, lançado em 1932 e que fala sobre um futuro distópico, em que um governo autoritário se encarrega de manter a população "feliz" durante todo o tempo, por meio de uma droga, evitando qualquer tipo de conflito. Já no Brasil de Zé Ramalho, o país ainda vivia a Ditadura Militar e era governado por João Baptista Figueiredo, que tinha acabado de assumir o cargo de presidente. Enquanto isso, movimentos de protesto continuavam funcionando já em um momento pós AI-5, ato institucional revogado em 1978 que cerceava ainda mais a liberdade de expressão de opositores, inclusive no meio artístico. 

Em "Admirável Gado Novo", Zé Ramalho envia um recado para essa "massa", os cidadãos brasileiros, que sempre "caminham muito" para receber menos do que dão aos detentores de poder. Algumas análises inclusive veem afinidade entre as ideias do artista e as de Karl Marx, que falava sobre mais valia: a disparidade entre os ganhos do trabalhador e o valor produzido pelo seu trabalho. 

 

Vocês que fazem parte dessa massa 

Que passa nos projetos do futuro 

É duro tanto ter que caminhar 

E dar muito mais do que receber 

 

Mas, apesar dessa relação desgastante de trabalho, a "massa" se sente presa a esse ciclo, que mostra sinais claros de desgaste, a "ferrugem" que come essa "engrenagem". Mais uma vez, a composição parece fazer uma crítica a dinâmica contemporânea de exploração das parcelas da sociedade que não detém o poder econômico e político.

 

À margem do que possa parecer 

E ver que toda essa engrenagem 

Já sente a ferrugem lhe comer 

 

Em seguida, a canção chega ao seu icônico refrão, que compara a vida do povo a do gado. Nas fazendas, existe o costume de marcar os animais para identificá-los como pertencentes àquela propriedade. A forma mais usual é pressionar uma ferramenta com ponta de ferro quente contra seus corpos, deixando uma marca "personalizada" do dono. 

Ao seguir a dinâmica imposta por terceiros, a população também faria parte de uma espécie de rebanho, manipulados para ignorar o mal na situação, como em "Admirável Mundo Novo". 

 

Ô, ô, ô, vida de gado 

Povo marcado, ê! 

Povo feliz! 

Ê, ô, ô, vida de gado 

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

 

Mas, apesar de haver um conforto nessa rotina, vigiada por quem comanda o sistema que domina a massa, a letra deixa claro que existe um desconforto dentro dessa "cela" imposta pelos detentores do poder. Nessas estrofes, Zé também fala sobre a saudade de um passado e sobre a fuga da ignorância. Mostrando, mais uma vez, que existe uma luta da população para não se entregar à ignorância proposta pelos poderosos. 

 

A vigilância cuida do normal 

Os automóveis ouvem a notícia 

Os homens a publicam no jornal 

E correm através da madrugada 

A única velhice que chegou 

Demoram-se na beira da estrada 

E passam a contar o que sobrou! 

O povo foge da ignorância 

Apesar de viver tão perto dela 

E sonham com melhores tempos idos 

Contemplam essa vida numa cela

 

Nas próximas estrofes, o compositor recupera uma referência bíblica: a arca de Noé. Na história, Deus envia um grande dilúvio que destrói o mundo, com a intenção de recomeçá-lo. Ele poupa apenas aqueles que estavam na arca, o que incluía Noé, sua mulher, seus filhos e suas companheiras e um casal de cada um dos animais que então existiam. 

O povo, personagem de "Admirável Gado Novo" também seria adepto dessa iniciativa, esperando uma nova ordem do sistema, mais livre, já que nessa "não voam, nem se pode flutuar".

 

Esperam nova possibilidade 

De verem esse mundo se acabar 

A arca de Noé, o dirigível 

Não voam, nem se pode flutuar 

Não voam, nem se pode flutuar 

Não voam, nem se pode flutuar

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